Foi publicado, na última edição do periódico científico Revista Noctua - Arqueologia e Patrimônio, um novo estudo sobre a tecnologia dos artefatos de pedra lascada da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. O artigo é assinado pelo Prof. Dr. João Carlos Moreno, coordenador do LAPEEX-ICHI-FURG.
O novo artigo realiza uma revisão dos estudos sobre esses tipos de artefatos desde a década de 1930, quando Harold Walter, então presidente da Academia de Ciências de Minas Gerais, realizou alguns estudos de caráter amador, tendo recolhido artefatos na região, inclusive de sítios arqueológicos que ele escavou (considerados, hoje, de maneira inadequada). Na época, Walter encontrou pontas de flecha/dardo de pedra lascada em vários desses sítios, como as da imagem a seguir, encontradas no sítio Abrigo do Eucalipto. O pesquisador também afirmou que a indústria lítica (de pedra) na região era marcada por uma alta presença de pequenas lascas de quartzo e algumas lâminas de machado polidas.
Na década de 1950 um novo estudo, dessa vez realizado por arqueólogos profissionais, liderados pelo estadunidense Wesley Hurt, realizou escavações arqueológicas e encontrou muitas pequenas lascas de quartzo, além de artefatos feitos em osso. As pontas de flecha, no entanto, se mostraram muito raras (imagem abaixo) e, de acordo com os pesqusiadores, essas pontas não servem para caracterizar a cultura dos povos primeiros povos indígenas da região.
Na década de 1970 outro projeto arqueológico foi realizado na região, coordenado pela francesa Annette Laming-Emperaire. Este projeto acabou sendo bruscamente interrompido devido ao trágico falecimento da pesquisadora, e os dados completos da pesquisa nunca foram publicados. Um destes resultados só foi se tornar famoso alguns anos depois, pois foi durante este projeto que o esqueleto de Luzia foi encontrado - que por muitos anos foi tido como o mais antigo das Américas.
Foi apenas nos anos 2000 que um grande projeto arqueológico foi realizado na região novamente, coordenado pelo bioantropólogo Walter Neves, o famoso projeto "Origens", que durou de 2000 a 2009, e cujos resultados destas pesquisas continuam sendo publicados ainda hoje. Durante este projeto foram encontrados os mesmos tipos de materiais de pedra lascada e polida encontrados em projetos anteriores. Mas foi apenas em 2018 que foram publicados os primeiros resultados de análise da tecnologia de produção destes artefatos, além de apresentar as datas mais antigas para lâminas de machado polidas nas Américas. Este novo estudo reafirma o fato de que as pontas de flecha/dardo feitas em pedra lascada não eram típicas da cultura local, de modo que não são representativas dela e devem ser entendidas como exceções ou como exógenas.
Quatro peças desse tipo foram encontradas durante o projeto Origens, entre 2000 e 2009, e sua tecnologia foi analisada e apresentada neste novo estudo. Três dessas peças possuem mais de 10 mil anos, enquanto apenas uma não pode ser datada. Veja as imagens abaixo:
O estudo demonstra que a tecnologia dessas peças não está de acordo com a indústria da cultura regional de Lagoa Santa, sendo que duas apresentam tecnologias mais similares com outras regiões/culturas, enquanto outras duas são bastante simples e parecem tentativas de imitação destas peças.
O estudo foi financiado pela FAPESP (processo nº 2019/08870-0), pelo edital FAPERGS ARD/ARC (processo nº 23/2551-0000810-6), e pela chamada Universal CNPq (processo nº 408639/2023-7).
Referência e link para o artigo completo: MORENO, João Carlos. 2025. Os estudos líticos na Região de Lagoa Santa (Minas Gerais) e novos dados da Tecnologia das Pontas. Revista Noctua - Arqueologia e Patrimônio, 2 (10): 79-102. DOI: 10.26892/noctua.v2i10p79-102